segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O perigo dos "Antitóxicos"


Recentemente assisti a uma brilhante palestra da Prof Christine Martins,da UnB,sobre hepatopatias em felinos,na qual alertara sobre a armadilha que muitos clínicos caem: o conto dos "antitóxicos",aqueles polivitamínicos que prometem verdadeiros milagres,mas que na verdade,são completamente contra-indicados em distúrbios hepáticos,principalmente os tóxicos.
Um felino hepatopata,seja crônico ou agudo,é um paciente de risco,qualquer medicação ou procedimento deve ser subsidiado por artigos e pesquisas sérias e de muita responsabilidade.A "onda" dos antitóxicos adveio da medicina humana,onde vários produtos são o topo da lucratividade de vários laboratórios,mas de uma inocuidade e até mesmo malefícios impressionantes.
A maioria destes medicamentos veterinários são compostos por vitaminas do complexo B,carboidratos e a METIONINA.Esta ,em um fígado normal, é fundamental para a atividade hepatocelular,porém em um orgão já insuficiente ou doente se transforma em um tóxico.
A explicação para essa duas facetas da metionina está em seu metabolismo e ação nos hepatócitos.A metionina é fundamental para a formação do SAME(S-AdenosilMetionina).Este é
imprescindível para o metabolismo normal de todas as células do organismo,mas com importância ainda maior nos hepatócitos.É responsável por reações de metilação,trans-sulfuração e aminopropilação.Por essas reações o fígado é capaz de metabolizar a maioria dos compostos,como medicamentos,tóxicos,hormônios;pela metilação ele forma fosfolipídeos e outros componentes de membrana,além de aminoácidos,proteínas e neurotransmissores.O SAME é o precursor do Glutation,um poderoso anti-oxidante intra-celular,responsável pela proteção contra vários tipos de injúrias celulares.
O grande problema é que para ocorrer essa transformação da metionina em SAME é necessária a catalização pela enzima Adomet-sintetase, e esta enzima está inibida em quadros de intoxicação aguda ou insuficiência hepática crônica.Portanto, a suplementação com metionina nestes casos só piora o quadro,podendo levar o animal a uma encefalopatia hepática,pois não há como metabolizá-la.A indicação é usar o próprio SAME e não a sua precursora.
O que mais me assusta é a quantidade de medicamentos veterinários à base de metionina e com indicação para intoxicações,danos hepáticos e até processos infecciosos.Enquanto que o SAME e outros fármacos como a Silimarina, podem ser encontrados no exterior,com preparação veterinária,prontos para o uso em nossos pacientes.
Portanto,nada de" colorir" os fluidos da terapêutica em nossos pacientes felinos,eles agradecem!



segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Hipertireoidismo



O hipertireoidismo é o segundo distúrbio endócrino mais comum nos felinos,ficando abaixo somente da Diabetes Mellitus.Entretanto, em alguns países ela é considerada a doença hormonal mais frequente na clínica de felinos.
Mesmo assim,diagnosticamos ainda poucos casos,principalmente devido ao desconhecimento da doença e pela falta de atitude diagnóstica pela maioria dos clínicos-veterinários.
A enfermidade é comum em gatos idosos,a partir de 8 anos,sem distinção de raça ou sexo.Tipicamente o animal chega com o histórico de polifagia e perda de peso crônico.Pode haver diarréia ou vômitos.A hiperatividade é muito comum,geralmente são animais facilmente irritáveis,de difícil manipulação,às vezes agressivos.Outros sintomas são a má qualidade do pelame,desidratação,tremores e hipertermia.É muito comum uma taquicardia de 250 a 260 bpm.A tireóide é facilmente palpável,logo abaixo da laringe,podendo haver aumento dos dois lobos,porém,em alguns casos o tecido tireóideo desce para a região medistínica intra-torácica.
Toda a sintomatologia é devido a ação dos hormônios tireoideanos em todo organismo,levando a um "super-metabolismo".
Os exames laboratoriais quase sempre estão alterados,eritrocitose é comum,devido ao estímulo do hormônio na eritropoese.Elevação da enzimas hepáticas,principalmente ALT e FA ,pode ser verificado,acredita-se ser devido a sobrecarga hepática.Na avaliação cardíaca é comum a hipertensão arterial,hipertrofia cardíaca e distúrbios de ritmo.Quase sempre a função renal também está comprometida,mas a insuficiência fica mascarada pelo o aumento do fluxo sanguíneo nos rins,devido ao hormônios tireoideanos,assim,valores de uréia e creatinina devem ser associados à urinálise e relação proteína/creatinina urinária.
O diagnóstico é relativamente simples. A dosagem da t4 total é muitas vezes suficiente para fechar,juntamente com a sintomatologia e a palpação da glândula.
O tratamento pode ser clínico ou cirúrgico.A terapêutica mais comum é o tratamento com o tiamazol,um fármaco que age inibindo os hormônios tireoideos.A cirurgia também é uma boa alternativa,mas com efeitos colaterais perigosos se não for bem suscedida.A técnica cirúrgica mais utilizada atualmente é a extracapsular com reimplante da paratireóide,onde se faz em duas etapas, retirando-se um lobo de cada vez,com intervalo de 30 a 40 dias.
A radioterapia com o Iodo é tido como o tratamento ideal,mas com limitação na disponibilidade em nosso país.
Finalmente, é importante salientar que é comum a descompensação renal após o tratamento clínico ou cirúrgico,devendo-se prever o quadro de insuficiência antes da terapia.