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domingo, 27 de março de 2011

Trombocitopenia em Gatos


A trombocitopenia é um achado laboratorial bastante comum em felinos,porém na verdade,a pseudotrombocitopenia é mais comum,que consiste na contagem errônea dos níveis plaquetários,principalmente pelos contadores hematológicos automáticos.Primeiro devido ao tamanho das plaquetas dos gatos,que algumas são quase iguais ao das hemácias e também devido à tendência destas formarem agregados mais rapidamente em relação as outras espécies.

Portanto, o ideal é que a contagem seja feita 'manualmente" e no máximo em até 30 minutos após a colheita da amostra sanguínea.

As desordens plaquetárias podem ser de dois tipos principalmente:Quantitativas,que é a diminuição do número de plaquetas,seja por redução da produção,aumento da destruição ou utilização destas; e os distúrbios qualitativos,ou trombocitopatia,que é a deficiência na função plaquetária.

Infelizmente a interpretação da trombocitopenia em felinos ainda gera enganos para a maioria dos clínicos,principalmente em relação aos hemoparasitas.Em dois importantes estudos,várias causas foram identificadas como causadoras de diminuição do número de plaquetas em gatos,a Hemobartonella ou Micoplasma NÃO foram verificados nestes animais.

Um estudo em Berlim e outro na Carolina do Norte,ambos sobre a prevalência de trombocitopenia em gatos e suas causas ,tiveram resultados semelhantes.No primeiro, foi relatado que dentre 63 animais trombocitopênicos as causas virais foram as mais comuns(FIV,FELV,PIF),seguidas de doenças inflamatórias(pancreatite,hepatopatias,problemas renais,FLUTD...) e doenças neoplásicas.Na Universidade da Carolina do Norte dentre os anos de 1985 a 1990,as doenças infecciosas virais também foram as causas mais encontradas,seguidas das neoplasia(linfomas,leucemias,hemangiosarcomas) e doenças cardíacas.A trombocitopenia imuno-mediada também foi relatada em 2% dos gatos .

O tratamento da trombocitopenia dependerá da causa subjacente.A transfusão de sangue total ou melhor,de papa de plaqueta(quando possível),vai também depender do quadro patológico.O maior benefício é quando há uma diminuição na produção e um consumo dentro da normalidade.Quando há uma destruição exagerada de palquetas e um distúrbio imuno-mediado a transfusão não é tão satisfatória,podendo haver uma piora rápida do quadro.

O link refere-se aos dois trabalhos abordados*.Notadamente a HEMOBARTONELOSE NÃO ENTRA NO DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL DE TROMBOCITOPENIA,além disso,não se pode afirmar que o gato está trombocitopênico diante de contagens feitas por contadores automáticos e depois de 1h da colheita da amostra sanguínea.



*Agradecimentos ao Prof.Archivaldo Reche Júnior.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Haemobartonela: Achado ou Vilã ?

Tenho visto muitos colegas diagnosticarem ou talvez super-diagnosticarem hemobartonelose muito facilmente,as vezes tão somente levando em consideração a um hemograma.Mas,ela é tão comum assim?
Há alguns anos,acreditava-se que a bactéria Haemobartonela felis era uma riquétsia,entretanto,com isolamento de sequencias de DNA,foi verificado que parecem mais com o gênero Mycoplasma.Sabe-se que trata-se de uma bactéria gram-negativa,não-ácido resistente e é parasita obrigatório de hemácias.Há duas espécies distintas morfologicamente e geneticamente: a pequena,antes chamada de "California",agora Candidatus mycoplasma haemominutum e a grande,antes "Ohio"e hoje,Mycoplasma haemofelis,possivelmente a única patogênica.
A forma de contágio não foi definida concretamente.Implicou-se como transmissores os artrópodes hematófagos como pulgas,mas também a transmissão vertical da mãe para os filhotes,através da placenta,leite ou até mesmo durante o parto, pode ser possível.Quando ocorre à infecção,as bactérias se aderem às hemácias,enterrando-se literalmente em suas membranas,alterando a morfologia dessas células.A partir daí começam os transtornos:os danos diretos dos parasitas nas membranas causam um encurtamento da expectativa de vida eritrocitária,levando à uma anemia por hemólise e sequestro,além de provocar uma produção de anticorpos anti-eritrocitários devido à exposição deliberada de antígenos das hemácias destruídas.Tudo isso causa uma anemia de característica auto-imune.
A tendência é o hematócrito cair bastante,causando anorexia,letargia,perda de peso e depressão em alguns gatos.Mas um ponto importante é que ,em apenas alguns animais ocorre essa grave anemia infecciosa,geralmente têm que coexistir fatores debilitantes e imunodepressores,principalmente FeLV,mas também processos infecciosos do trato respiratório superior,FIV e toxoplasmose.Portanto,atualmente considera-se a hemobartonelose como uma doença oportunista,em que o estresse e o imunocomprometimento favorecem o desenvolvimento da enfermidade,mesmo que em alguns casos não verifique-se o fator desencadeante.
As características laboratoriais vistas no hemograma consistem principalmente de anemia normocítica normocrômica regenerativa,geralmente com hematócrito de 15 a 17%,podendo haver anisocitose e policromasia.Verifica-se que em casos de FeLV concomitante,pode haver um caráter arregenerativo e uma macrocitose.O leucograma estará sem alterações significativas,as vezes uma leucocitose.Em relação às plaquetas,é importante destacar:O Mycoplasma Haemofelis NÃO CAUSA TROMBOCITOPENIA!!!
Essa crença veio da comparação que muitos clínicos,erroneamente fazem ,com a erliquiose canina,o que é um absurdo,levando à diagnósticos equivocados.Aliás, a trombocitopenia em gatos,na maioria dos casos,não deve ser levada a sério,por ser geralmente devida a fragilidade destas células nos felinos,que facilmente são
destruídas pelas técnicas hematológicas.

No perfil bioquímico,pode ocorrer um aumento da enzimas hepáticas,principalmente ALT e AST,também bilirrubinas e colesterol.Em casos graves,o gato pode ficar ictérico,devido à intensa hemólise extra e intra-vascular.
O diagnóstico pode ser feito através dos sinais clínicos e achados laboratoriais,além de técnicas de PCR,que é um teste bem sensível e extremamente eficaz na detecção da enfermidade.A pesquisa direta através de esfregaços sanguíneos é um método tradicional e de grande valia,mas deve-se ter o cuidado no preparo das lâminas,para se evitar falsos-positivos,principalmente por artefatos causados por secagem ou fixação e precipitação de corante inapropriadas.No entanto,não se pode descartar a hemobartonelose se não foi encontrado o parasita,devido ao fenômeno de parasitemia cíclica,a ausência de microorganismos não descarta a enfermidade.
O tratamento mais recomendado é a base doxiciclina,pois as outras tetraciclinas podem induzir febres nos gatos,principlamente formulações injetáveis.Pode-se utilizar também corticóides de curta duração,para diminuir o processo de autodestruição das hemácias,além de anti-anêmicos e vitaminas.É essencial sabermos que a terapia não elimina o parasita,o gato fica infectado por longos períodos,podendo haver reincidiva em casos de doenças concomitantes.
Portanto,muito cuidado em diagnosticar a doença,o parasita pode está presente,mas não ser a causa do quadro clínico,todos suspeitos devem ser submetidos a testes de PCR e/ou pesquisa direta do microorganismo,além de ser investigada possível enfermidade desencadeadora.