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domingo, 24 de agosto de 2014

Obstrução Uretral



            A obstrução uretral em felinos é  um quadro emergencial que necessita de uma intervenção rápida, já que pode levar ao óbito do paciente. O tratamento deverá se basear no controle da dor do paciente, na correção dos efeitos sistêmicos da uremia e prevenção das recidivas. Essa obstrução pode ser atribuída aos urólitos e plugs (mais comum em gatos), à infecção, à neoplasia, a trauma ou a causas iatrogênicas.
            Os sinais clínicos apresentados por gatos obstruídos dependem da duração da doença e do grau da obstrução, mas normalmente pode-se observar várias tentativas para urinar, com emissão de pouca urina em diversos locais e com coloração avermelhada ou mesmo a não emissão de urina.Vale salientar que os machos são mais propensos a este quadro, devido a disposição anatômica da uretra longa e estreita.
                        O diagnóstico é baseado no histórico clínico e exame físico do paciente, sendo essencial a realização dos exames complementares como exames radiográficos e ultrassonográficos , além de exames laboratoriais que servirão para verificar a evolução da doença.

DESOBSTRUÇÃO URETRAL

            O procedimento recomendado para desobstrução do lúmen uretral depende do grau de obstrução e da posição anatômica do urólito ou plug, podendo ser feita a: Massagem uretral distal e desalojamento do plug;  esvaziamento da bexiga superdistendida, que pode ser feito através da indução de micção pela suave palpação da bexiga ou cistocentese; Desobstrução do lúmen uretral por propulsão hídrica com posterior lavagem da vesical e cateterização.
Recomenda-se ainda o procedimento cirúrgico quando nenhum dos protocolos médicos clínicos são eficazes para alivio da obstrução, principalmente quando associado a infecção urinária persistente ou quando as reincidivas do quadro levam ao comprometimento da função renal e danos anatômicos como estenose de uretra. É importante que se faça, independente do procedimento desobstrutivo adotado, uma investigação das causas dessa obstrução.

PROCEDIMENTO CIRÚRGICO

·         Uretrostomia perineal

            É um método cirúrgico de desvio urinário que consiste na remoção do pênis do paciente com o intuito de criar um novo orifício com uma abertura maior entre a uretra pélvica e a pele na região perineal, para realização desse procedimento é necessário que seja feito a castração do animal. Quando esse procedimento é indicado e realizado adequadamente, é benéfico para o paciente e gera poucas complicações, no entanto não se pode descartar a maior facilidade de infecção bacteriana do trato inferior. Em casos de complicações cirúrgicas é comum observar estenose uretral, incontinência fecal ou urinária, hemorragias, extravasamento de urina e deiscência de sutura.

·         Uretrostomia pré-púbica

            A uretrostomia pré-púbica é uma técnica de desvio urinário permanente onde uretra é desviada para a região abdominal ventrocaudal. Esse procedimento é indicado em casos de estenose uretral, que se desenvolve pela formação de tecido de cicatricial excessivo que acontece em decorrência de uretrostomia perineal mal sucedida, ou em casos em que a falta de pele na região perineal impede a realização da uretrostomia perineal.
            As infecções bacterinas tornam-se mais freqüentes em animais que realizaram a uretrostomia pré-púbica quando comparados com animais que realizaram a uretrostomia perineal. Isso ocorre devido à uma maior redução no comprimento da uretra e aumento do seu diâmetro o que também pode levar a uma incontinência urinária, entretanto, nesses casos o risco de estenose é mínimo, já que nessa região o diâmetro da uretra é três a quatro vezes maior que na região perineal. A dermatite amoniacal podem ser diminuída caso durante o procedimento cirúrgico tenha-se o cuidado de evitar tensão tecidual no orifício uretral e a justaposição da mucosa uretral à margem da pele.
Obs: Não se deve realizar nenhum procedimento cirúrgico em gatos urêmicos, sendo indicado a fluidoterapia pré-operatória e a correção dos desequilíbrios eletrolíticos e ácido-básicos.



PREVENÇÃO
·         Mudar a dieta do animal, procurando fornecer ração enlatada ou úmida, que tem um maior teor de água;
·         Fornecer água fresca em todas as ocasiões;
·         Promover diariamente a higiene da caixa de defecação/micção;
·         Evitar a obesidade, mediante a limitação da ingestão de calorias;
·         Monitorar paciente através de exames físicos e laboratoriais.

domingo, 14 de abril de 2013

O Gato e a Síndrome de Pandora


   A Caixa de Pandora, de acordo com a mitologia grega, era um artefato, na verdade um jarro, que continha todos os males do mundo. A mesma foi confiada à Pandora, por seu pai, Zeus, com uma condição de jamais abrí-la. Numa crise de curiosidade, Pandora desobedeceu e ao abrir a Caixa libertou todos os malogros existentes, como ódio, inveja, raiva e desamor. Mas o que os nossos felinos têm a ver com essa história?

   Longe de os gatos representarem os males do mundo,  pois sabemos o quanto nos fazem bem. Na realidade essa Síndrome é uma analogia a constelação de sinais e distúrbios do gato que sofre de Doença do Trato Urinário Inferior, com a Caixa, enigmática, que parecia esconder todos os malogros possíveis.

   Gatos acometidos pela Doença do Trato Urinário Inferior podem também apresentar sinais de comorbidades, sendo comuns: Dermatites psicogênicas, distúrbios neurológicos, endócrinos e comportamentais. Acredita-se que assim, estes animais podem sofrer de um “mal” muito mais amplo e pouco compreendido, ou seja, a Síndrome de Pandora.

   Sabe-se realmente, que  há fatores comuns que causam ou predispõem os gatos a estas enfermidades; Como a obesidade, o sedentarismo e a super-população. Animais que convivem em situações de estresse constante, em atrito com outros indivíduos ,ambientes pequenos, pouca atividade física, são condições predisponentes a estas morbidades, que muitas vezes vêm associadas.

   Assim como o mito de Pandora, em que a Esperança permaneceu no fundo da Caixa, há também bonança para estes pacientes que sofrem destes males. A modificação  multimodal do ambiente é fundamental para a recuperação destes animais. O enriquecimento do local aonde vivem podem resolver a quase cem por cento a sintomatologia, mesmo sem o uso de fármacos. Prover o animal de esconderijos, brinquedos, jogos e estímulos, favorece a diminuição de estresse, protegendo-os do efeito “colateral” do Sistema Nervoso Simpático.

   É importante que o clínico veterinário e o proprietário entendam que  a Cistite no paciente felino é multifatorial. Com uma visão” holística”, poderemos detectar os fatores desencadeantes e consequentemente tratar melhor nossos pacientes.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Modificação Ambiental Multimodal para Tratamento da Cistite Intersticial Felina



Há uma grande similitude entre a cistite intersticial humana e a felina,onde em ambas é visto uma piora dos sintomas em situações de estresse e mudanças ambientais.Tanto em gatos,como em humanos, a quantidade de fibras nervosas sensoriais na mucosa vesical está aumentada,assim como a quantidade de mastócitos,responsáveis pela liberação de histamina,também estão em maior número na bexiga desses indivíduos que sofrem da doença.
Gatos que apresentam repetidamente sinais como:dificuldade e dor ao urinar,periúria(micção em lugares inapropriados),hematúria(sangue na urina),sem a presença de cálculos urinários ou infecção bacteriana urinária,são fortes suspeitos de sofrerem de Cistite Interticial.
Acredita-se que o papel do ambiente é de fundamental importância no desenvolvimento da doença.Animais que vivem confinados em lugares pequenos,monótonos e previsíveis possuem um risco maior em desenvolver a cistite,associado à predisposição genética do indivíduo.Assim como ambientes com muitos gatos,aonde a competição por espaço é aumentada e a possibilidade de conflitos é maior.
Várias enfermidades foram associadas ao estresse ambiental,como problemas comportamentais,obesidade,diabetes,hipertireoidismo e urolitíases.
Na verdade,qualquer mudança no dia-a-dia do gato pode iniciar ou reincidivar uma cistite intersticial.Em um estudo,foi demonstrado o aumento do número de casos de hematúria e estrangúria em gatos na Califórnia,após um terremoto.(Caston,1973)
A "MEMO",ou Modificação Ambiental Multimodal é um conjunto de medidas ou recomendações ao proprietário de gatos,a fim de diminuir a probabilidade da ativação do sistema de resposta ao estresse do felino.Baseia-se na educação do proprietário,mudanças na relação entre o gato e seus contactantes e outros animais do ambiente,alterações na alimentação,evitando-se situações ou fontes de estresse,além de aumentar a ingestão de água,melhorar a limpeza e o manejo das liteiras,sempre procurando mantê-las em locais calmos e seguros para o gato , montar estruturas e mobílias altas para que o felino possa escalar e "abrigar-se",aonde eles possam "vigiar" o ambiente,sentindo-se seguros.Tentar resolver os conflitos entre os indivíduos que coabitam o lugar,identificando as "fontes" de estresse e aumentar a interação entre o dono e o gato.
Em um estudo (Buffington et al,2006),46 gatos com histórico de cistite intersticial foram submetidos a MEMO,dentre estes,cerca de 33 animais apresentavam comportamento medroso ou inseguro,e cerca de 25% eram agressivos.A grande maioria não estava sendo tratado com nenhum fármaco.O acompanhamento foi aproximadamente por 10 meses,onde 75% dos animais não apresentaram mais sinais de Cistite Interticial,como hematúria ou polaciúria.Foi observada também uma melhora em outros quadros clínicos associados ao estresse,como problemas respiratórios(tosse e espirro) e dermatites.
Os autores relataram que a MEMO deve ser instituída antes mesmo da terapia farmacológica,ressaltando que nem medicamentos e nem mudança na alimentação são satisfatórias quando utilizadas sem o enriquecimento ambiental.
É importante salientar ao proprietário o caráter multifatorial da doença e que a resposta ao tratamento é totalmente individual,dependente de cada caso.No site www.indoorcat.org encontram-se importantes instruções aos proprietários para ajudar no enriquecimento ambiental.

Um grande abraço e ótimo 2012!

domingo, 23 de outubro de 2011

*Enfermidade do Trato Urinário Inferior dos Felinos:Um guia para proprietários


A doença do trato urinário inferior dos felinos(DTUIF) consiste numa variedade de condições que afetam a bexiga e uretra dos gatos.Geralmente os gatos que são afetados por esta enfermidade apresentam dificuldade e dor ao urinar,aumentam a frequência em urinar e também pode haver sangue na urina.Eles tendem a aumentar a lambedura na região do pênis ou vagina e podem apresentar alterações no comportamento,como micção fora da caixa-de-areia,preferindo superfícies frias e lisas,como azulejos e banheiros.
O problema pode afetar gatos de todas as idades,entretanto,animais de média idade,com sobrepeso,sedentários,que alimentam-se de dieta seca,sem acesso externo,são os mais comumente afetados.Alguns fatores como estresse emocional ou ambiental,famílias com vários gatos,mudanças bruscas no dia-a-dia do gato,aumentam o risco do desenvolvimento da DTUIF.
Os principais sintomas são:Esforço para urinar,mantendo-se em posição agachada,sem expelir nada de urina,o que muitas vezes pode ser confundido com constipação ou dificuldade em defecar.Urinar em pequenas quantidades e frequentemente;Dor e choro ao urinar;Lamber-se excessivamente na região genital;Sangue na urina e micção em lugares inapropriados.
Um estágio mais grave da DTUIF é a obstrução uretral,que é o fechamento da passagem de urina da bexiga até o exterior,cujo os sinais são semelhantes,porém o gato não urina quase nada e mantêm-se mais moribundo e dolorido.A obstrução acontece mais em machos,visto que a uretra da fêmeas é de diâmetro mais largo.É importante perceber um quadro de obstrução uretral rapidamente,pois o animal sempre merecerá um tratamento emergencial.
As causas são variadas:Obstruções por cálculos,microcálculos ou" plugs",estes últimos são formados na bexiga pela deposição de microcristais e material inflamatório protéico,o que formam verdadeiros tampões na uretra;Cistite Idiopática Felina,que é uma alteração inflamatória na parede da bexiga,muito associada ao estresse,onde ocorre uma inflamação generalizada na mucosa do orgão,com sangramento,dificultando a contração e a eliminação da urina.Infecções urinárias não são comuns,devido às particularidades da urina do felino,como a alta densidade e osmolaridade,que impede o crescimento de bactérias.Porém,em animais idosos ou com problemas renais devem ser consideradas.
O tratamento depende da causa da DTUIF,mas consiste principalmente em anti-inflamatórios,mudança de manejo ambiental e dietético, e muita hidratação.Em casos mais graves como os obstrutivos, o animal poderá ser internado para sondagens e soroterapia intensiva.Em alguns quadros mais graves e repetitivos,poderá ser necessário um procedimento cirúrgico denominado "uretrostomia",que é uma nova abertura uretral,com amputação peniana.É muito importante levar o gato rapidamente ao veterinário,evitando dar medicações,pois qualquer erro ou demora as consequências podem ser fatais.
Existem algumas formas de prevenir e tentar diminuir as crises ou o aparecimento desta enfermidade,que consistem em medidas simples,como:Aumentar a frequência de alimentação,em pequenas quantidades diárias;Consultar a um médico-veterinário para conhecer a dieta mais indicada para seu felino;Preferencialmente oferecer dietas úmidas(enlatadas);Água fresca e abundante em várias partes do ambiente;Quantidade de liteiras compatível e suficiente para todos os gatos da casa,preferencialmente uma a mais que o número de habitantes.Estas caixas-de-areias devem permanecer limpas e em lugares tranquilos e seguros.Deve-se evitar mudanças ambientais bruscas e minimizar todo o tipo de estresse.O enriquecimento ambiental é também importante,devendo-se proporcionar alternativas,jogos e atividades para os animais.

*Baseado no informativo da American Veterinary Medical Association(www.avma.org)

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Participação do Estresse na Cistite Interticial e o Uso de Ferormônios Sintéticos como Coadjuvantes na Terapia


O caráter neurogênico da cistite interticial felina já é quase um consenso.Sabe-se que o distúrbio é bem semelhante à cistite humana e que em ambas ,tanto em gatos como em humanos,as situações estressantes agravam ou desencadeiam os sintomas.
Alterações no diário do felino como viagens,hospedagens,internamentos,mudanças no ambiente físico,disposição e localização de liteiras,entrada de novos animais ou humanos,tudo isso pode ocasionar o disparo de um quadro de cistite.
Já está comprovado que felinos que sofrem de cistites reincidivantes, possuem um maior número de fibras nervosas simpáticas nas camadas mucosa e muscular da bexiga.Além de um aumento da noradrenalina circulante, tanto em repouso como em estados excitatórios.Estas fibras eferentes simpáticas interagem com fibras sensoriais da mucosa vesical,responsáveis pela liberação da substância P ,que é um neuropeptídeo capaz de causar ativação e degranulação de mastócitos.Estes ativados,liberam compostos inflamatórios e vasoativos,resultando nos sintomas clássicos de doença do trato urinário inferior dos felinos,como a hematúria e estrangúria.
Portanto,todo tipo de melhora no manejo e no bem-estar do felino que sofre desta enfermidade é bem-vinda.Aumentando a chance de sucesso terapêutico e diminuindo as reincidivas.
A formulação sintética do hormônio facial felino(Feliway) foi desenvolvido para diminuir a ansiedade relacionada ao comportamento dos gatos.Situações como marcação territorial por urina ou arranhaduras são reduzidas,principalmente por diminuição da vigilância do felino,em consequência de uma percepção mais "amigável" de seu ambiente.Esta redução da vigilância provavelmente esteja relacionada à diminuição da ativação do sistema nervoso simpático,assim,o ferormônio pode ser utilizado para gatos com cistite interticial,reduzindo esse impacto do estresse sobre o desarolho da doença.Ele é um componente valioso dentro da terapêutica desta enfermidade,muitas vezes associando-o com um enriquecimento ambiental.
É necessário destacar a multifatorialiedade da cistite interticial felina,seu tratamento deve ser baseado nisto.Outras medidas como mudança na consistência da dieta,fármacos antidepressivos,anti-inflamatórios e GAG's, podem ser integradas.